Histórias de travesseiro

por Kiara Terra



Adormecer é anoitecer em uma entrega possível.


Mas em dias de notícias duras anoitecer demora.


Essa noite a luz do quarto de minha filha grande participou acesa tempo demais.


Em silêncio no escuro eu assistia o fio do abajur incandescer um pouco o quarto dela.


Ela lia. Era quase madrugada quando veio para meu quarto. Como quando era pequena.


Mas já não era mais. Me olhou e não disse nada.


Da última vez aos 10 anos me perguntara o eu fazer quando enfrentasse as intempéries da vida. Ela me Disse :


Em todas as histórias que li em todas sem exceção aconteciam coisas difíceis


O que eu faço mãe se viver essas coisas? Lembro de abraça-la pequena magricela entre meus braços. Era ela no desamparo bonito de estar viva no colo dos improváveis dos indizíveis revelados a ela enquanto lia. Também, não sei meu amor.


Hoje quando veio ao meu quarto ela não me perguntou nada. Hoje nos abraçamos e estávamos muito perto uma da outra.


Existe um tipo de resistência de força de selvageria indomável. E só ela me faz adormecer diante de tempos tão difíceis.


Minha filha grande por dois anos não  está ali entre os estudantes secundaristas paulistas. E eles apanharam de homens grandes fardados equipados até os dentes.


A dureza insone cobria nossos olhos e  nos calou. O Coração no corpo inteiro


Pensei  na epifania na força de meninas e meninos. Um sim sem precedentes.


Palavra na boca olhos e mãos de quem vive a experiência inaugural de fazer parte.


Pertencimento experiência cuja a força desafia o desejo cego de controle.


Educar alguém constitui um ato de respeito tão revolucionário eu o aluno nasce para sua força.


Ensinar é colocar na sina.


Educar não. Educar pressupõe reinvenção de destinos. Pressupõe a difícil tarefa de sustentar perguntas sobre a condição humana suas escolhas relações o modo como nos homens consumimos como amamos como desejamos como morremos como desenvolvemos linguagem.


Sustentar perguntas é sustentar também ser despido diante dos olhos recém-nascidos de alunos eu ainda se perguntam coisas nós já não nos perguntamos.


Nascer amar fazer lutos falar do mundo estão além de sinas pré-estabelecidas e se existem equívocos evidentes nas relações entre tempo dinheiro vida afeto consumo poder.


E por muito tempo haverá.


Haverá também gerações inteiras com olhos de fogo eu se perguntarão e nos perguntarão por eu ainda vivemos segundo modelos inviáveis individuais e perversos?


De toda força essa chamada aqui olhos de fogo viabiliza mudanças. Evita, resiste e entrega-se om desconcertante interesse sem reserva

Um dia a violência deflagrada ali mobilizara homens grandes e estarão habilitados a se tornarem pare de um todo. E o fogo desejo inaugural de meninos e meninas será preservado para voos maiores. Hoje abracei minha filha grande, estávamos mais perto uma da outra. Agradeci em silêncio Toda força que um dia vida a dentro gestou transformação.


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