Cidadania
Quando foi que os dias de compras passaram a dominar as nossas viagens?

Quando foi que os dias de compras passaram a dominar as nossas viagens?

Terça-Feira é o dia de ” Você Acredita? “. Em época de férias, quem resiste ao consumo? Vera Rocha faz uma reflexão em sua coluna sobre este assunto para nós, do Jardins da Infância.

Por Vera Rocha

Lembro-me de muitas das minhas viagens, criança e adulta, o objetivo sempre foi o passeio, conhecer lugares e aprender. Ser surpreendido por aquela exposição fantástica, o filhote de tigre que acabara de nascer no Zoo ou descobrir que a pintura do seu artista favorito estava emprestada… muito longe dali.

Tenho na memória mais remota o cheiro da Cidade de Ouro Preto que visitei pela primeira vez aos 3 anos de idade. Tenho caderninhos com anotações sobre passeios, ingressos, bilhetes, mapas. Observações sobre gastos com compras que quase nunca ultrapassavam um dia. Dependendo do destino, nem havia o que comprar…

A graça das viagens era ser expectador ou parte do lugar, às vezes quase um cidadão. A maior lembrança as fotos escolhidas a dedo, afinal não existia o mundo digital.

Hoje se multiplicam as viagens com base no consumo. Viaja-se para comprar e ostentar e nem sempre se percebe que a língua falada é outra, que a comida pode ser diferente, que a paisagem e o clima são únicos, assim como a arquitetura e a organização.

Fui do tempo em que o planejamento das viagens nos demandava a leitura de guias, cadernos de jornal, revistas especializadas e dicas de amigos viajados que não se importavam em compartilhar seus achados: cidades, hotéis, passeios, restaurantes… Hoje, a leitura de um ou dois sites já é suficiente para muitos decidirem roteiros inteiros. Interessante que com tanto acesso à informação, tantas possibilidades no horizonte, maior número de viajantes e oportunidades de destino a baixo custo, vejo crianças e pais em sua quinta ida consecutiva para a Disney, já elaborando a lista de compras da próxima. Ao adotar este modelo de lazer-consumo, vamos criando crianças cada vez mais dependentes do prazer associado ao consumismo… a mesma criança que só se diverte quando vai ao shopping…

É claro que surgem outras possibilidades: pessoas que depois de anos e anos viajando para comprar, resolveram que chique é viajar e voltar leve; as viagens como foco na natureza também estão em alta…

Mas, eu estou falando do modelo que se estabeleceu e que vem contaminando as nossas crianças. Vamos romper com os  shoppings e outlets como única opção, vamos dar a oportunidade das nossas crianças terem viagens que se tornarão marcos, lembranças especiais, possibilidades de aprendizagem e diversão que vão além de pacotes e malas…

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